Relatos colhidos pela CNN indicam que autoridades russas recorrem cada vez mais à coerção e ao engano para manter tropas na guerra contra a Ucrânia, em vez de depender apenas de incentivos financeiros. Os entrevistados pediram sigilo por temer represálias.
Um dos casos descritos envolve um homem de quase 60 anos, funcionário de uma empresa estatal de defesa, que foi abordado por homens à paisana em frente ao prédio onde morava e levado em um carro. Segundo a família, ele foi obrigado a assinar um contrato militar apresentado como simples notificação. Semanas depois, foi dado como desaparecido em combate.
Outro relato trata de um irmão detido em estado de embriaguez por pessoas não identificadas, que a família acredita serem ligadas a um posto local de recrutamento. A CNN teve acesso ao contrato assinado e a um vídeo da despedida, mas a promotoria militar concluiu que ele se apresentou voluntariamente. Menos de um mês depois, também foi dado como desaparecido em combate.
Alvos vulneráveis e bônus por recrutamento
Advogados ouvidos pela reportagem afirmam que a maioria dos casos atinge homens endividados, doentes ou com problemas de alcoolismo. Uma coalizão de advogados que orienta recrutas registrou aumento de denúncias nos meses de julho e agosto.
Autoridades regionais admitem pagar bônus a quem indicar novos militares. O governador da região de Riazan anunciou valores entre 50 mil e 300 mil rublos por contratado, segundo a reportagem cerca de 3 mil a 18,5 mil reais. A CNN não conseguiu confirmar que os abordagens nas ruas sejam feitas por pessoas que buscam esses pagamentos, mas parentes chamam esses indivíduos de caçadores de recompensas.
Em junho, a região de Penza, a cerca de 600 quilômetros ao sul de Moscou, passou a ser citada em redes sociais e por grupos de direitos humanos como foco de recrutamento forçado. Um vídeo geolocalizado pela CNN mostra mulheres exigindo a libertação de homens dentro de um ônibus em um centro de recrutamento. O Ministério da Defesa classificou os relatos como falsos e não respondeu a pedidos de comentário sobre outros casos.
Contexto e incertezas
A Rússia nega repetidamente que prepare uma nova mobilização em massa, apesar de a Ucrânia afirmar o contrário. Especialistas dizem que o recrutamento é organizado por cotas regionais, o que torna improvável que o Kremlin oriente diretamente essas táticas, mas avaliam que elas podem ser toleradas como solução para a falta de efetivo.
Grupos de defesa de direitos relatam aumento de consultas sobre emigração. Uma organização antiguerra formada por profissionais de tecnologia exilados prevê uma mobilização gradual, sem convocação em massa imediata. Ainda não é possível saber a extensão real dos casos nem se essa prática será ampliada.




