O Ibovespa recuou 2,68% no pregão de hoje e acumula perda de 16,6% desde a reeleição de Lula, somando os três pregões da semana. A queda média esconde perdas maiores em papéis específicos. A Casas Bahia caiu 20% no dia, a Cosan recuou 12%, a Cyrela perdeu 11% e a Cogna, 10%. Até segmentos vistos como mais sólidos, como bancos e empresas de energia, foram afetados. O índice financeiro IFNC caiu 4,76% e o de energia elétrica IEE, 3%.
No acumulado desde o domingo da eleição, as perdas são ainda mais expressivas. A Vamos, do grupo Simpar, perdeu 60% do valor de mercado. A Magazine Luiza recuou 59%, a Cosan 55% e a Hapvida 52%. O índice imobiliário IMOB lidera as baixas do setor, com queda de 33,6%. O índice de consumo ICON caiu 28,5% e o de small caps, 30%. Entre sexta-feira passada e terça-feira, sem contar a sessão de hoje, a Bolsa já havia perdido R$ 662 bilhões em valor de mercado.
Um fator econômico somou-se ao efeito eleitoral. O BTG elevou sua projeção de IPCA para 2027, de 4,8% para 5,9%, e para 2026, de 5,3% para 5,4%. Com isso, cresceu a chance de o Banco Central interromper o ciclo de redução de juros já na próxima reunião, o que pressiona empresas mais endividadas. Um analista do buy side afirmou que, sem sinais de ajuste fiscal, as condições financeiras, as ações e os contratos de DI tendem a piorar. Ele citou como pontos de pressão a gasolina e o diesel represados, a escala 6x1 e as promessas feitas na campanha.
No campo político, a decisão de Flávio Bolsonaro de buscar asilo nos Estados Unidos também entrou na conta. Segundo um gestor, o mercado pode estar começando a precificar o risco de sanções ou da Lei Magnitsky caso o governo de Donald Trump não reconheça o resultado. Ainda no mesmo dia, Flávio publicou uma carta em que se apresentava como verdadeiro presidente eleito e, depois, alterou o texto para se definir apenas como líder do Brasil. Um ex-analista do UBS-BB, Giuliano Ajeje, escreveu no LinkedIn que a intensidade da reação sugere pouca proteção para uma surpresa eleitoral.
Gestores também apontam risco de novas quedas por causa de fundos multimercados que sofreram perdas grandes e podem precisar vender papéis para atender saques. Um sócio de outra gestora avalia que essa dinâmica poderia gerar uma segunda onda de baixa, mas considera que isso ainda não está acontecendo. Outro gestor, que tinha hedge contra o Ibovespa, afirmou que muitos fundos estavam alavancados na aposta na vitória de Flávio. Ainda não está claro até quando a queda vai durar, nem como o governo e o Banco Central vão reagir às projeções de inflação e às possíveis sanções externas.




