Lula foi reeleito em 25 de outubro, em vitória que surpreendeu parte dos analistas. Com a atenção voltada ao adversário, o senador Flávio Bolsonaro, que deixou o país e se declarou líder do Brasil, o debate agora se volta para o futuro da esquerda. O presidente completou 81 anos na terça-feira e terá de começar logo a preparar sucessores, tarefa em que já fracassou no passado.

A trajetória de Lula é marcada por longevidade política rara. Ele disputou a primeira eleição presidencial em 1989 e venceu apenas na quarta tentativa, em 2002. Após dois mandatos, uma condenação por corrupção o afastou da disputa de 2018, depois anulada pelo Supremo Tribunal Federal. Até hoje, nenhum outro político eleito democraticamente no Brasil foi presidente mais de duas vezes desde a redemocratização.

Ao longo das décadas, Lula costumava conter os rivais de esquerda e depois trazê-los de volta à base. Marina Silva, Ciro Gomes e outros tentaram ocupar esse espaço e perderam força. O resultado é que o partido ficou sem um nome nacionalmente conhecido para suceder o presidente. Fernando Haddad, por exemplo, perdeu quatro eleições seguidas.

O próximo mandato deve ser difícil. A partir de fevereiro, o Partido Liberal, ligado a Bolsonaro, terá a maior bancada na Câmara e no Senado, o que dificulta a aprovação de prioridades do governo e a confirmação de indicados ao Supremo. As contas públicas também estão sob pressão, com déficit fiscal próximo de 8% do PIB previsto pelo FMI para este ano e dívida bruta acima de 80% do PIB, segundo o Banco Central.

Um dos caminhos citados é preparar um grupo de políticos mais jovens. O nome mais lembrado é o do governador do Piauí, Rafael Fonteles, de 41 anos, reeleito neste mês com 70,9% dos votos. Ele poderia assumir o Ministério da Fazenda ou o das Relações Exteriores, mas a Fazenda exigiria decisões econômicas impopulares. Outros nomes citados incluem Camilo Santana, João Campos e Renan Filho.

Há também divisões internas. O PT se divide entre uma ala mais à esquerda e outra social-democrata, e a relação com a Venezuela de Nicolás Maduro expôs essas tensões. Ainda não está claro se Lula dará espaço real aos novos nomes nem como o partido administrará a disputa para 2030. Analistas avaliam que, sem essa renovação, a esquerda pode ficar em desvantagem por vários ciclos eleitorais.