Um colunista da Foreign Policy questiona se algo ocorrido no último mês de campanha nos Estados Unidos entrará para a história como uma "surpresa de outubro". Para ele, grandes eventos recentes, como um acordo de petróleo anunciado por Donald Trump com a Rússia e a operação de agentes federais na casa da deputada Ilhan Omar, não alteraram de forma visível as tendências que favorecem os democratas.

A exceção possível é uma reportagem do New York Times sobre assessores ligados a Mary Peltola, candidata democrata ao Senado pelo Alasca. Segundo a apuração, eles teriam participado de uma suposta articulação para lançar outro candidato chamado Dan Sullivan, com o objetivo de confundir eleitores e dividir o voto republicano. O governador do estado, Mike Dunleavy, determinou uma investigação.

O caso não é ilegal, segundo o texto, já que a prática de lançar candidatos homônimos é uma tática partidária antiga. Ainda assim, a história pode alimentar uma ofensiva do Departamento de Justiça para impedir a certificação do resultado no estado caso o republicano perca. O alcance político do episódio ainda não está claro.

Desde 1980, cada ciclo eleitoral americano gera especulações sobre a possibilidade de uma surpresa de outubro. O termo ganhou força naquele ano, quando o então diretor de campanha de Ronald Reagan temia um acordo do presidente Jimmy Carter para libertar 52 reféns americanos no Irã. O acordo não saiu antes da votação, e os reféns foram soltos minutos após a posse de Reagan, em janeiro de 1981. Acusações de interferência nas negociações nunca foram comprovadas.

Na maioria das vezes, porém, o temor supera o fato. Casos como a acusação contra o ex-secretário de Defesa Caspar Weinberger, às vésperas da eleição de 1992, e a revelação de uma prisão de George W. Bush por dirigir embriagado, em 1976, pouco antes da votação de 2000, tiveram peso menor do que outros fatores no resultado.

A crise de 1962

Há exceções. Em outubro de 1962, o presidente John F. Kennedy enfrentou a União Soviética após a instalação de mísseis nucleares em Cuba, a cerca de 90 milhas da costa americana. A descoberta, feita por voos de reconhecimento, surgiu a três semanas das eleições de meio de mandato e mudou o cenário político.

Antes disso, republicanos atacavam Kennedy por supostamente não lidar bem com a ameaça soviética, e o fracasso da invasão da Baía dos Porcos pesava contra ele. Após o anúncio de Kennedy, em 22 de outubro, a Marinha impôs um bloqueio à ilha. A crise terminou em 28 de outubro, com um acordo em que a União Soviética retiraria os mísseis e os Estados Unidos se comprometeriam a não invadir Cuba. Em um acordo secreto, Washington também se comprometeu a retirar seus mísseis Júpiter da Turquia.

O episódio neutralizou Cuba como arma de campanha dos republicanos e elevou a avaliação de Kennedy, que chegou a 74%. Os democratas ganharam quatro cadeiras no Senado e perderam poucas na Câmara, contrariando a tendência habitual de derrotas do partido do presidente em eleições de meio de mandato.

O autor avalia que a surpresa de outubro dificilmente alteraria uma eleição hoje, por causa da polarização, da fragmentação da mídia, da desinformação e do desinteresse político. Ainda assim, ele observa que o histórico mostra momentos em que fatos inesperados redesenharam o campo político. Até o momento, não há indicação de qual será o efeito da reportagem sobre o Alasca nas urnas.