A derrota histórica dos republicanos nas eleições legislativas dos Estados Unidos mostrou que os eleitores estão insatisfeitos com a guerra do presidente Donald Trump contra o Irã e com as tarifas altas, ambas apontadas como causas do agravamento da crise de custo de vida.

Três disputas ajudam a entender como o eleitorado americano vê os pilares da agenda global de Trump. Em Michigan, a democrata progressista Abdul El-Sayed venceu o ex-deputado republicano Mike Rogers na disputa pelo Senado. Ela girou em torno de Israel, e El-Sayed acusa o país de genocídio em Gaza e de apartheid na Cisjordânia. Ele defende o fim do apoio militar incondicional dos EUA a Israel e a outros países do Oriente Médio, como Egito e Arábia Saudita.

Na primária, El-Sayed derrotou por pouco a candidata preferida do establishment democrata, a deputada Haley Stevens. O Comitê de Assuntos Públicos Israel-Estados Unidos (AIPAC) gastou pelo menos 30 milhões de dólares para apoiar Stevens e, depois, milhões a mais para ajudar Rogers na eleição geral.

Segundo pesquisa do Chicago Council on Global Affairs de outubro, a avaliação de Israel entre democratas caiu de 52 para 30 pontos desde 2022, e entre republicanos foi de 69 para 62. Diante disso, Trump afirmou na terça-feira que cerca de 4 bilhões de dólares anuais em assistência de segurança a Israel terminariam neste ano. Já o vice-presidente J.D. Vance citou a mudança na relação com Israel entre os ajustes que os republicanos deveriam fazer para recuperar eleitores.

Em New Hampshire, a guerra comercial com o Canadá pesou sobre a campanha. O ex-senador republicano John E. Sununu, que defendia as tarifas no início da disputa, admitiu em debate que o conflito foi um "enorme erro". Segundo a National Taxpayers Union Foundation, as tarifas retaliatórias custaram ao estado cerca de 1,1 bilhão de dólares desde janeiro de 2025. O democrata Chris Pappas venceu por quase 14 pontos.

Na Flórida, eleitores latinos também se afastaram do governo. Trump recebeu 42% do voto latino nacional em 2024, recorde para um republicano, mas a deportação em massa e a crise de custo de vida enfraqueceram esse apoio. No distrito de Miami-Dade, a deputada republicana Maria Elvira Salazar tinha vantagem mínima na contagem, e a disputa poderia ir a recontagem. Os democratas também venceram três distritos latinos da Flórida que os republicanos haviam redesenhado.

Ainda não se sabe o resultado final da disputa na Flórida, que depende de recontagem possível. Também não está claro até onde a mudança de posição de republicanos sobre Israel e tarifas vai se refletir na política externa dos EUA nos próximos anos.