Na reta final da eleição presidencial, aliados de Flávio Bolsonaro (PL) passaram a explorar o discurso da guerra espiritual, que apresenta a disputa como um confronto entre o bem e o mal. Pautas morais clássicas, como aborto e ideologia de gênero, perderam peso relativo, segundo a reportagem da Folha.
Na sexta-feira (23), a deputada estadual eleita Ana Campagnolo (PL) publicou imagem que fazia referência à mão do presidente Lula, que não tem o dedo mindinho. Na peça, ela associou temas como aborto e legalização das drogas a candidatos da esquerda e pediu que cristãos não votassem neles.
Mobilização religiosa
Levantamento de perfis digitais religiosos feito pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque identificou forte mobilização de campanhas de jejum e oração pelo Brasil nos dias antes do segundo turno. Influenciadores religiosos chamaram esses atos de forma de combater uma ideologia demoníaca.
O discurso também atingiu religiões de matriz africana. Um vídeo de um ato pró-Lula, com cantos sobre manter Bolsonaro amarrado num cipó, foi usado por aliados para acusar os manifestantes de desejar a morte do ex-presidente. A pesquisadora Carolina Rocha, do Iser, afirma que a expressão vem da tradição da Jurema e se refere a proteção espiritual, não a um desejo literal de morte.
Apoios de última hora
Na reta final, líderes evangélicos de grande alcance declararam apoio a Flávio. Os ministérios Belém e Madureira, da Assembleia de Deus, indicaram preferência pelo senador. O missionário R.R. Soares, que até então não havia se manifestado publicamente sobre o filho de Jair Bolsonaro, disse que o candidato é novo e que o eleitorado deveria dar a ele uma oportunidade.
No início da campanha, parte dos pastores que agora apoiam Flávio duvidava de sua capacidade de repetir o apelo eleitoral do pai. Eles temiam que suspeitas de corrupção e escândalos de ordem moral prejudicassem a candidatura. Segundo a reportagem, essas suspeitas tiveram menos impacto do que se previa.
O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, afirmou que os fiéis perdoariam o candidato mesmo se surgissem provas de irregularidades. Flávio tem dito que se converteu ao evangelicalismo, processo que, segundo a reportagem, teria começado em 2022.
Ainda não está claro qual será o peso desse discurso religioso no resultado e na futura bancada evangélica, que deve crescer com nomes como Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira. Também não se sabe se a estratégia terá efeito duradouro sobre o debate público.




