O professor de Relações Internacionais João Daniel Almeida, da PUC-Rio, afirmou em entrevista ao GLOBO que o Brasil passou a ser visto como exemplo de como barrar a extrema direita dentro da democracia. Segundo ele, a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do país repercutiram nos Estados Unidos antes das eleições legislativas marcadas para a terça-feira.

O contexto é uma sequência de ataques do presidente Donald Trump aos resultados da eleição brasileira. Pouco antes, Trump havia elogiado a rapidez da apuração no primeiro turno. Depois, passou a repetir acusações de fraude sem provas. Em seguida, Flávio Bolsonaro deixou o Brasil e foi aos Estados Unidos, após divulgar uma carta de teor golpista que foi criticada até por aliados.

Para o professor, a história ganhou repercussão entre políticos democratas, que passaram a citar o caso em redes sociais. Alguns defenderam deportar os Bolsonaros se a oposição voltar ao poder em 2028. Segundo a análise, a mudança de tom de Flávio Bolsonaro, que deixou de se apresentar como presidente eleito e passou a se chamar de líder da oposição, teve relação com essa reação.

Almeida avalia que o principal interesse de Trump em abrigar aliados bolsonaristas era a possibilidade de influenciar eleições brasileiras por meio de redes sociais. Segundo ele, a derrota nas urnas e a saída do país reduziram o poder político desses nomes, o que eleva o custo dessa aliança para o republicano.

Sobre as legislativas americanas, o professor prevê que os democratas podem vencer na Câmara e talvez no Senado. Para ele, Trump deve contestar o resultado, mas sem efeito significativo, e um eventual revés o deixaria sem força para aprovar medidas no fim do mandato. Almeida também disse que Trump deve reconhecer o resultado brasileiro depois da votação americana.

Ainda não está claro se Trump e Lula terão uma relação de cooperação. Os dois devem se encontrar em dezembro, na cúpula do G20 em Miami. Para o professor, a assimetria de poder limita a resposta do governo brasileiro, que não tem como retaliar. Ele apontou a regulamentação das redes sociais e a soberania digital, que inclui o Pix, como temas com potencial para gerar atrito com Washington.