O cientista político André Singer, em artigo de opinião publicado pela Folha de S.Paulo, analisa a virada de Lula no segundo turno da eleição presidencial de 2026. Segundo o autor, a vitória freou uma onda conservadora que avançava pela América Latina e deve ser seguida de uma série de disputas políticas.

Singer identifica três fatores para a mudança. O primeiro foi a reorganização da campanha após o primeiro turno, quando o presidente reconheceu em comício, em Porto Alegre, que o preço do café e da carne estava alto. Em seguida, o governo tomou uma sequência de decisões, como o reajuste de 15% do Bolsa Família, a proibição das apostas on-line e a compra de dívidas com desconto, o Desenrola 3.

O segundo fator, segundo o artigo, foi a mobilização espontânea de jovens estudantes e trabalhadores, que começou em Niterói e se espalhou para o Rio de Janeiro e São Paulo. Atos na avenida Paulista reuniram multidões em 11 de outubro e 24 de outubro. O autor também cita a gratuidade da tarifa de transporte nos fins de semana como medida que dialogou com essas ruas.

O terceiro fator apontado é a atuação do deputado André Janones nas redes sociais, cujos comandos teriam mobilizado milhões de internautas. Singer diz que não é especialista no tema e prefere deixar a análise digital para outros estudiosos.

O contexto econômico ajuda a explicar a eleição. Segundo o texto, a inflação pós-pandemia, as guerras, o endividamento e a expansão das bets pesaram sobre o orçamento das famílias, mesmo com aumento do emprego. O artigo cita 84 milhões de pessoas inadimplentes em agosto.

Para o autor, o desafio agora é cumprir os compromissos assumidos com as ruas. Ele afirma que o mercado financeiro reagiu na segunda-feira, 26 de outubro, e sinalizou que deixaria o país caso houvesse aumento dos gastos públicos. Singer avalia que cumprir as promessas sem ampliar o investimento estatal será difícil.