O decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, publicou críticas à atuação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, durante a votação do segundo turno. Sem citar o nome do colega, Gilmar afirmou que quem conduz o órgão responsável pelo pleito deve manter postura equidistante, e que silêncios e hesitações não são neutros.

Segundo o ministro, a falta de manifestação pode levar outras instâncias a resolver, por caminhos próprios, problemas que poderiam ter sido tratados antes. Para ele, essa omissão também pode servir de pretexto para quem questiona um sistema eleitoral que considera íntegro e confiável.

No domingo da votação, o TSE recebeu denúncias de falta de ônibus em várias cidades. Diante disso, o PT pediu a prorrogação do horário de votação. Depois, o PL também solicitou a extensão do prazo até as 19h em municípios de cinco estados, por causa das chuvas.

Como Nunes Marques não se manifestou, o PT recorreu ao STF. O ministro Cristiano Zanin autorizou a extensão do horário, mas a decisão foi publicada três minutos antes do fechamento previsto, às 17h, quando grande parte das urnas já estava fechada. Assim, a determinação alcançou apenas as seções que ainda funcionavam.

Após a divulgação do resultado, o então candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, contestou a vitória de Lula, alegando que Zanin havia favorecido o petista. Apenas 35 mil votos foram computados nas duas horas adicionais, e Lula venceu por mais de 4 milhões de votos.

Analistas avaliam que os embates entre ministros do STF enfraquecem a imagem da Corte e aumentam a pressão do Congresso, sobretudo do Senado, sobre o Judiciário. O cientista político André César afirmou que o desgaste atinge a instituição como um todo, vista pela opinião pública como um bloco único, e que a recuperação da credibilidade deve levar tempo.

Ainda não está claro se a disputa entre Legislativo e Judiciário vai se aprofundar. O Senado tem entre suas prerrogativas a participação na escolha de ministros e mecanismos de controle sobre a Corte. Até o fechamento da reportagem, Nunes Marques não havia respondido às críticas.