O chanceler de Omã, Sayyid Badr Albusaidi, defendeu em uma palestra na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, um pacto de não agressão entre os oito países costeiros do Golfo. O grupo reúne os seis membros do Conselho de Cooperação do Golfo, além do Iraque e do Irã. Segundo ele, o acordo seria o pré-requisito para uma arquitetura de segurança regional inclusiva. O texto, um artigo de opinião publicado pela Al Jazeera, reconhece que a proposta é difícil, mas afirma que a região precisa de um caminho diplomático diante de uma nova escalada entre Irã e Estados Unidos.
A proposta se apoia em um precedente. Em novembro de 1976, os chanceleres dos oito países se reuniram em Mascate, a capital omanense, para discutir segurança coletiva após a saída britânica da região. Até hoje, é a única vez em que todos sentaram à mesma mesa. A Revolução Iraniana, a invasão soviética do Afeganistão e a guerra Irã-Iraque empurraram os países para alianças defensivas, que depois se transformaram em exclusão. O texto lembra que o Irã controla cerca de metade da costa do Golfo, e por isso uma arquitetura sem o país seria estruturalmente frágil.
Em 2019, o então chanceler iraniano Javad Zarif propôs um pacto regional de não agressão, e o presidente Hassan Rouhani lançou, na Assembleia Geral da ONU, a Iniciativa de Paz de Ormuz. Governos do Golfo reagiram, em grande parte, com ceticismo, citando o apoio iraniano a grupos armados. Depois da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o tema voltou. Em maio, o Financial Times relatou que a Arábia Saudita discutia com Teerã um marco de não agressão. Neste mês, o ministro da Defesa do Catar pediu diálogo entre o Conselho de Cooperação do Golfo e o Irã, com participação da Turquia e do Paquistão.
A principal objeção é a desconfiança em relação a um estado cuja conduta ameaçou a segurança regional. Omã protestou formalmente contra o Irã após ataques com drones contra Musandam e Al Wusta, em julho. O texto defende que o pacto obrigue todos os signatários, inclusive o Irã, com compromissos contra o uso da força, a interferência em assuntos internos, ataques a infraestrutura civil e o apoio a grupos armados que atuam além das fronteiras. As negociações começariam com medidas limitadas, como linhas militares diretas, regras para encontros no mar e proteção de usinas de dessalinização e navios comerciais.
No Estreito de Ormuz, Omã e Irã já esboçaram um arranjo temporário de navegação. Segundo Albusaidi, ele só poderá ser aplicado se Washington e Teerã recuarem em ações de guerra que interromperam o tráfego marítimo. Ainda não há data para o início das negociações, e o texto não detalha como verificar o cumprimento de compromissos por grupos armados. O pacto também não resolveria todos os conflitos da região, como a guerra no Iêmen, e os Estados Unidos e Israel ficariam de fora. Para o autor, a credibilidade da proposta dependerá de mudança concreta de comportamento, e não apenas de assinaturas.




