Os anúncios políticos criados com inteligência artificial ganharam força na campanha para as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos. O fenômeno, chamado de slopaganda, aparece tanto entre republicanos quanto entre democratas, embora os apoiadores do presidente Donald Trump sejam os que mais investem na tecnologia.
Um dos exemplos citados é um anúncio de Abdul El-Sayed, candidato democrata ao Senado pelo Michigan. A peça mostra cartas de um jogo de tabuleiro com frases hostis aos Estados Unidos e faz referência ao 11 de Setembro. Uma foto de família gerada por IA também aparece no material, que foi produzido por uma organização ligada a Ted Cruz, senador republicano pelo Texas. O vídeo traz aviso sobre o uso da tecnologia, situação considerada rara.
Segundo o Wesleyan Media Project, que acompanha os gastos com publicidade eleitoral, já foram identificados 220 anúncios políticos gerados por IA. Pesquisadores afirmam que o número real é maior. Cerca de 81% desses anúncios foram financiados por candidatos ou grupos ligados aos republicanos, 12% por democratas e o restante por independentes. Apenas 27% mencionam o uso de IA, o que, de acordo com Erika Franklin Fowler, codiretora do projeto, favorece a propagação de desinformação.
Gastos e regras
A veiculação desses anúncios custou mais de 137 milhões de dólares, o equivalente a cerca de 753,4 milhões de reais. Em 2024, o gasto com anúncios gerados por IA foi de 50 mil dólares, ou 274 mil reais. Não há regra federal que obrigue a inclusão de aviso, embora alguns estados tenham limitado o uso da tecnologia nas campanhas eleitorais.
O senador democrata Jon Ossoff, que tenta a reeleição na Geórgia, pediu a retirada de um anúncio com IA que o mostra em um salão de beleza e o acusa de maquiar seu relatório de prestação de contas. O material é do Senate Leadership Fund, grupo que apoia candidatos republicanos ao Senado. Ossoff classificou como preocupante o crescimento desse tipo de conteúdo na disputa.
Uma pesquisa feita para a Fundação AAPC mostrou que 73% dos entrevistados consideram inaceitável o uso de IA em anúncios de campanha. Já um relatório do Centro de Política Tecnológica da Universidade de Nova York avalia que esse recurso tende a ser mais eficaz para mobilizar eleitores e arrecadar fundos do que para decidir o resultado de uma eleição.
Ainda não está claro qual será o impacto real desses anúncios no voto. O mesmo relatório alerta que o excesso de conteúdo confuso gerado por IA pode reduzir a capacidade de as mensagens chamarem a atenção do eleitorado.




