Veículos de notícia começam a tratar agentes de inteligência artificial como público-alvo. Em vez de leitores humanos, alguns sites passam a produzir feeds otimizados para máquinas e textos estruturados que permitem aos agentes gerar matérias personalizadas.

A executiva de receita da Axios, Jacquelyn Cameron, afirma que o ecossistema de mídia está mudando. Ela cita a deterioração da web aberta, a retração das buscas e o avanço da personalização, com modelos de linguagem cada vez mais usados para consumir notícias.

A Axios anunciou o lançamento do Axios Direct, feeds criados para agentes de IA. O primeiro, lançado neste outono, dá acesso a conteúdo sobre fusões e aquisições a assinantes corporativos do Axios Pro Deals. Um segundo feed servirá para treinar modelos de linguagem internos e será lançado no ano que vem. Um terceiro, voltado ao consumidor individual, está previsto para o próximo ano.

Outro modelo de produção

A Every, empresa de tecnologia e mídia fundada há seis anos, segue outro caminho. Segundo o fundador Dan Shipper, os textos trazem prompts que o leitor pode copiar e testar em sistemas de IA. Alguns guias também têm botões que enviam o conteúdo a assistentes como Claude e ChatGPT.

Outra aposta da empresa é o artigo expansível. Um texto de 8 mil palavras sobre o Codex pode ser transformado pelo agente do assinante em resumo, podcast ou vídeo, a partir de uma base de entrevistas e reportagens. Shipper afirma que, com a IA, o jornalista deixa de decidir sozinho quais escolhas são as certas para cada leitor.

Em paralelo, grandes editoras reagem de formas diferentes. Muitas fecharam acordos para que plataformas de IA exibam seus conteúdos. Há também estratégias de otimização para respostas de IA e arquivos que ajudam sistemas a interpretar sites. O The New York Times, por outro lado, processou a OpenAI e a Microsoft em 2023 por violação de direitos autorais, e o caso segue em andamento.

A monetização é a principal dúvida. O professor Rasmus Kleis Nielsen, da Universidade de Copenhague, afirma que o mercado de publicação para agentes é incipiente e muito desigual. Ainda não há clareza sobre preços nem sobre a forma como agentes vão interagir com conteúdos.

Na Axios, a executiva Allison Murphy diz que o formato curto e muito estruturado já faz da empresa uma fonte preferida das IAs. Já o pesquisador da Universidade de Copenhague avalia que a visibilidade da marca pode ser positiva, mesmo sem visitas diretas ao site. Uma assinatura anual da Every custa 288 dólares, e a do Axios Pro Deals, 2.499 dólares.

Murphy afirma que o movimento não é inédito na mídia, lembrando a migração para redes sociais, vídeos curtos e podcasts. Para ela, a IA funciona menos como público e mais como ferramenta para chegar ao leitor. Ainda não está claro, porém, se essas apostas trarão retorno financeiro às empresas.