Em agosto, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e o FBI desmontaram a infraestrutura online de duas plataformas de hacking operadas por um grupo ligado ao Estado chinês. O alvo eram redes sensíveis do governo americano desde pelo menos 2018. Em outubro, as agências apreenderam ferramentas usadas por outro grupo desse tipo, cujas operações já haviam sido interrompidas em 2024.
Segundo a autora, Washington consegue negar aos hackers de Pequim o acesso a capacidades nocivas. Porém a longevidade e a reaparição das campanhas mostram que a interrupção pontual não anula as vantagens estratégicas geradas por anos de atividade cibernética chinesa.
Da incidente isolado à estratégia ampla
A abordagem tradicional dos EUA tratava as operações chinesas como incidentes de segurança separados. Para impedir que a China acumule vantagens por meio de ataques digitais, porém, seria preciso mudar os incentivos de todo um ecossistema de hackers ligado ao Estado, que afeta militar, tecnologia e comércio americanos.
Em março, a Estratégia Cibernética 2026 do governo americano prometeu ações sustentadas e agressivas, com parcerias público-privadas e medidas econômicas e jurídicas. Relatórios do Conselho de Relações Exteriores e do instituto britânico RUSI defendem coordenar operações cibernéticas com outros instrumentos de poder do Estado.
Campanhas como a Volt Typhoon, de 2023, garantiram acesso a infraestrutura americana em Guam, considerada crítica para operações em uma eventual crise em Taiwan. Os EUA removeram parte dos pontos de apoio, mas o Departamento de Justiça alertou que a infraestrutura segue vulnerável. O ano seguinte trouxe a campanha ligada à rede Salt Typhoon, que comprometeu redes de telecomunicações americanas e chegou a monitorar comunicações de assessores do Congresso.
Ainda não está claro se a infraestrutura da Salt Typhoon foi removida das redes afetadas ou se continua reunindo informações. Também não se sabe com precisão se a estratégia atual conseguirá conter o acúmulo de acessos e de inteligência.
Limites das sanções
Em 2015, o então presidente Barack Obama e o presidente chinês Xi Jinping acordaram que nenhum dos lados promoveria roubo de propriedade intelectual para vantagem comercial. Empresas de segurança passaram a registrar queda nas invasões detectadas contra companhias americanas, embora a queda já tivesse começado antes do acordo e suas causas sigam em disputa.
Hoje, segundo o texto, Washington não tem uma categoria restrita de conduta em torno da qual organizar a dissuasão. Sanções, restrições à exportação, investigações criminais e exposição pública podem atingir empresas e pessoas do ecossistema, mas muitos desses fornecedores atuam dentro da China e dependem de clientes estatais, que podem financiá-los ou substituí-los.
Para pressionar Pequim de forma relevante, os EUA teriam de sinalizar que atividades cibernéticas específicas gerariam custos grandes, como restrições a exportações de semicondutores ou ao acesso ao mercado americano. A China, porém, poderia retaliar com limites ao fornecimento de terras raras e minerais críticos, o que afetaria a produção de defesa americana.
A autora conclui que Washington precisaria aceitar custos econômicos imediatos por um efeito dissuasório incerto e de duração indefinida. Ela sustenta que a dissuasão ainda pode proteger infraestrutura e serviços essenciais, mas não deve ser confundida com a contenção de todo o padrão de acúmulo de vantagens.




