A economia voltou a decidir uma eleição nos Estados Unidos. Mesmo com Donald Trump pouco focado no tema, a preocupação dos eleitores com o aumento do custo de vida impulsionou uma virada política que deve dar aos democratas a maior mudança desde o caso Watergate. O partido terá a maior maioria da Câmara em quase quatro décadas e a maior vantagem no Senado desde 2008.

Os novos democratas chegam ao poder com a promessa de tornar a vida mais barata. Segundo a reportagem, porém, eles terão pouco espaço para aliviar a pressão sobre preços de gasolina, alimentos, hipotecas e planos de saúde nos próximos dois anos. Os mesmos problemas de renda e custo que ajudaram a eleger a oposição foram os que levaram Trump à Casa Branca há dois anos, o que pode voltar contra o partido.

O líder da maioria democrata no Senado, Chuck Schumer, afirmou que os americanos querem que Washington reduza o custo de vida. Hakeem Jeffries, provável presidente da Câmara, disse que o partido vai lutar por um país mais acessível. Analistas, porém, lembram que boa parte dos preços depende de fatores fora do controle do Congresso.

O caso da gasolina ilustra o limite. Segundo a análise, baixar o preço exigiria um acordo com o Irã que reabra o estreito de Ormuz. Schumer diz que o partido pode encerrar a guerra, mas Trump pode discordar. O Congresso tem poder legal para encerrar conflitos, porém não está claro como isso funcionaria na prática, já que o presidente conduziu a guerra sem aprovação dos parlamentares.

Outras frentes também estão travadas. Os democratas não têm 60 votos no Senado para barrar uma obstrução e cortar verbas da guerra. Na política comercial, a Suprema Corte derrubou tarifas de segurança nacional por excesso de autoridade presidencial, mas o governo as recriou com outra base legal. A política migratória segue com financiamento integral e pode continuar sem freios.

Restaurar subsídios do Affordable Care Act ou reverter cortes no Medicaid e nos vales-alimentação, previstos na lei One Big Beautiful Bill, também é difícil. O déficit orçamentário já está em cerca de 6% do PIB, o que limita o dinheiro disponível. Além disso, os democratas não têm votos para derrubar vetos presidenciais, e um Trump sem pressão eleitoral pode agir com mais liberdade.

A economia também pode atrapalhar. O crescimento foi puxado sobretudo por investimentos em inteligência artificial, e o mercado já duvida que os gastos com centros de dados se paguem a tempo. O índice Nasdaq caiu mais de 10% no último mês. Ainda não se sabe se o setor sustentará o crescimento nem se os democratas conseguirão mostrar resultados ao eleitor antes da próxima disputa.