O dólar fechou a sexta-feira (30) a R$ 5,447, maior cotação do ano. Na semana após a reeleição do presidente Lula, a moeda americana subiu 9,2%. Segundo analistas, o movimento reflete temor do mercado financeiro de que o ajuste fiscal do governo seja insuficiente.

Economistas passaram a rever as projeções para o IPCA. O câmbio mais alto pode pressionar preços de combustíveis, alimentos e bens duráveis, além de produtos que dependem de insumos importados e de commodities agrícolas.

O fator climático também pesa. Os alimentos já mostravam alta por causa da menor oferta após chuvas fortes no Sul e no Sudeste, e os efeitos iniciais do El Niño, que altera temperaturas e a distribuição das chuvas, podem se intensificar.

O economista Fábio Romão, da 4intelligence, elevou sua projeção para o IPCA de 2026 de 5,18% para 5,31%, e a de 2027 de 4,23% para 5%. Sergio Vale, da MB Associados, prevê 5,2% em 2026 e 4,5% em 2027. Rafael Cardoso, do Daycoval, projeta 5% e 4,2%, respectivamente.

A meta de inflação do Banco Central tem centro em 3%, com tolerância de 1,5 ponto para cima ou para baixo. Em outubro, o IPCA-15 desacelerou para 0,32%, mas a alta dos alimentos no domicílio, de 1,01%, foi a maior para o mês desde 2021. O mercado, segundo o boletim Focus, espera 5,19% para 2026 e 4,34% para 2027, projeções coletadas antes da vitória de Lula.

Solange Srour, do UBS GWM, afirma que, sem ajuste fiscal crível, o dólar deve seguir alto e pressionar a inflação de 2027, o que pode levar o Banco Central a voltar a subir os juros. O boletim Focus prevê Selic em 13,25% no fim deste ano e 11,75% no próximo.

Ainda não se sabe se o câmbio vai se acomodar. Vale diz que isso depende de sinais do presidente sobre a área fiscal e a formação do novo governo. Também há dúvida sobre o petróleo, os custos do fim da escala 6×1 e as medidas do governo para combustíveis. Segundo a reportagem, a extensão de medidas de ajuste fiscal abriu um impasse dentro do governo.