Em dezembro de 1931, economistas reunidos em Washington discutiram a ameaça que a tecnologia representava para os trabalhadores americanos. Naquele momento, telefonistas, músicos de cinema e carroceiros já sentiam os efeitos de máquinas que substituíam seu trabalho.
Quase um século depois, economistas usam esses episódios para tentar entender a inteligência artificial. Embora as profissões sejam outras, como programadores e roteiristas, as perguntas se repetem: quem se beneficia, se surgirão novas vagas e o que o governo pode fazer para amparar quem perde o emprego.
Os exemplos históricos ganham peso porque o cenário atual é incerto. Os modelos econômicos apresentam desde um ganho de produtividade modesto, semelhante ao da internet, até uma transformação maior que a Revolução Industrial, em um prazo muito menor, segundo uma carta assinada por quase 200 economistas.
O contexto importa
Na época da reunião de 1931, o desemprego nos Estados Unidos estava perto de 20% e chegaria a 25% no ano seguinte, recorde que permanece até hoje. Na década de 1920, a troca de centrais manuais por telefones de disco eliminou dezenas de milhares de postos, mas a maioria das trabalhadoras, em sua maioria mulheres jovens, encontrou outra ocupação com relativa rapidez.
Quando a Grande Depressão se instalou, essa absorção ficou mais difícil. Anos depois, a demanda de guerra e o crescimento do pós-guerra criaram vagas em grande número, o que amenizou os temores. Já na Inglaterra do século XIX, máquinas de debulha substituíram trabalhadores rurais que estavam em guerra, e o resultado foram as chamadas Revoltas de Swing, na década de 1830.
A velocidade faz diferença
Segundo economistas ouvidos pela reportagem, a situação geral da economia e a localização geográfica influenciam o efeito da tecnologia. Em regiões prósperas e perto de cidades, os trabalhadores tinham mais alternativas e os protestos foram menos intensos.
A rapidez também pesa. As companhias telefônicas trocaram centrais manuais por discagem mecanizada em uma única noite, e um estudo de 2024 mostrou que as telefonistas demitidas tiveram menos chance de seguir empregadas e, quando voltaram ao mercado, receberam salários menores. Já a substituição gradual dos carroceiros por caminhões permitiu que os mais jovens migrassem de setor.
Economistas dizem que o impacto costuma ser mais sutil do que a perda total de vagas. Entre 1851 e 1911, o número de fabricantes de botas na Inglaterra quase não mudou, mas o trabalho deixou de ser artesanal e passou a ser feito em fábricas.
Ainda não se sabe qual será o alcance da inteligência artificial. Economistas afirmam que as rupturas podem superar as de episódios anteriores e atingir também países cuja economia depende de call centers e suporte técnico. Também não está claro o que substituirá os empregos administrativos caso sejam eliminados em grande parcela.




